Uefa diz que Fifa "cruzou linha vermelha" ao suspender punição a atacante dos EUA na Copa do Mundo
6 Jul (Reuters) - A Uefa, entidade que rege o futebol europeu, criticou duramente nesta segunda-feira a decisão da Fifa de suspender a punição de cartão vermelho de um atacante dos EUA, afirmando que a entidade que comanda o futebol mundial havia “cruzado uma linha vermelha” após o presidente Donald Trump intervir pessoalmente no caso.
A decisão causou comoção na Copa do Mundo e colocou o processo disciplinar da Fifa no centro das atenções, provocando uma reação indignada liderada pela Bélgica, que enfrenta os EUA nesta segunda-feira por uma vaga nas quartas de final.
Isso também garantiu que um dos principais temas de discussão do torneio não se concentre em táticas ou na escalação das equipes, mas na relação entre a entidade que rege o esporte e o poder político.
A Fifa liberou o atacante norte-americano Folarin Balogun para jogar depois que Trump pediu pessoalmente ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, que revisasse o caso.
“Expressamos nossa incredulidade diante de uma decisão tão sem precedentes, incompreensível e injustificável”, afirmou a Uefa em comunicado na segunda-feira, acrescentando que ela “cruzou uma linha vermelha”.
“Quando a certeza das regras não é mais garantida por seus guardiões, a integridade do jogo fica em risco e a credibilidade de uma competição é prejudicada.”
A intervenção da Uefa ecoou as críticas de algumas figuras de destaque do esporte.
“Este é o nosso esporte, não o deles”, disse o ex-técnico do Liverpool Juergen Klopp.
“Se Donald Trump e Gianni Infantino realmente resolveram isso entre si, é uma loucura; isso coloca tudo em xeque. Essas duas pessoas (Trump e Infantino), que não entendem nada de futebol, não deveriam ter absolutamente nada a ver com isso.”
O presidente da federação alemã de futebol afirmou que “a integridade da competição e a credibilidade da Fifa estão em jogo”. Com as críticas se espalhando para a esfera política, o comissário europeu para o esporte alertou contra “a instrumentalização do esporte para fins políticos”.
"UMA GRANDE INJUSTIÇA"
Em questão de minutos, a decisão de domingo de reverter a suspensão automática dominava os noticiários esportivos e programas de debate, enquanto especialistas, comentaristas e ex-jogadores discutiam se a Fifa havia feito justiça ou minado suas próprias regras.
A Fifa não respondeu a pedidos de comentários da Reuters sobre a decisão e a ligação de Trump com Infantino.
Balogun, que marcou três gols pelos EUA no torneio, foi expulso após uma revisão do VAR por pisar na parte de trás da perna do zagueiro Tarik Muharemovic durante a vitória sobre a Bósnia e Herzegovina nos 16 avos de final.
O cartão vermelho acarretava uma suspensão automática de uma partida, o que deixaria Balogun fora das oitavas de final contra a Bélgica. Em vez disso, a Fifa suspendeu a punição por um período probatório de um ano, sem anular o cartão em si.
“Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça”, escreveu Trump no Truth Social, enquanto a Casa Branca comemorava a reintegração de Balogun à seleção com uma postagem no X dizendo: “USA-USA-USA”.
O técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, disse que a entrada de Balogun não merecia cartão vermelho, mas questionou a decisão de suspender a punição, tendo acabado de ver seu defensor Jarell Quansah ser expulso na vitória de sua equipe por 3 x 2 sobre o México nas oitavas de final, no domingo.
“Quem revoga essa decisão, então, e quando? E com base em que? Até onde isso vai agora? Isso é estranho para mim”, declarou Tuchel aos repórteres no Estádio Azteca, no México. “Onde isso começa e onde termina?”
A Federação Real Belga de Futebol disse estar “surpresa” com a decisão da Fifa de declarar Balogun apto a jogar a partida, citando o regulamento enquanto investigava todas as opções possíveis.
Até mesmo o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter, que renunciou em 2015 em meio a acusações de corrupção, juntou-se às críticas. “Cartões vermelhos não são anulados por telefonemas políticos. Eles são anulados por regras, evidências e órgãos independentes”, disse ele.