Lamine Yamal dobra a Áustria e restaura a pegada da Espanha

 


Por Fernando Kallas

2 Jul (Reuters) - Para um país que há tanto tempo venera o coletivo, a Espanha está descobrindo o delicioso constrangimento de ter um jogador de 18 anos que não para de fazer com que o brilho individual pareça um fundamento da equipe, com Lamine Yamal liderando a vitória por 3 x 0 sobre a Áustria.

Lamine chegou à Copa do Mundo com uma lesão preocupante na coxa e começou a campanha da Espanha no banco de reservas, enquanto a equipe de Luis de la Fuente tropeçava em um empate sem gols contra Cabo Verde — uma atuação sem brilho, pegada e qualquer traço da confiança que a tornou campeã europeia em 2024.

Desde aquele início decepcionante, à medida que Lamine ganhou minutos e ritmo, a Espanha voltou a parecer cada vez mais a Espanha — mas com um toque especial. A velha máquina de controle de meio-campo permanece, mas agora conta com um jovem relâmpago na ponta direita, um jogador que os adversários sabem que está chegando e ainda assim não conseguem parar.

Seu retorno à melhor forma física coincidiu com o aumento da autoridade das atuações da Espanha. Isso dificilmente é coincidência. Desde que despontou na academia La Masia, do Barcelona, aos 16 anos, Lamine tem demonstrado a rara habilidade de fazer com que o futebol estruturado pareça espontâneo.

Ele foi fundamental para o título da Espanha na Eurocopa da Alemanha, na qual a seleção venceu todas as partidas, praticou um futebol ofensivo vibrante e quebrou o recorde de gols do torneio. Na América do Norte, a jornada tem sido mais acidentada, com problemas físicos atrapalhando os planos de De la Fuente, incluindo as dificuldades de Nico Williams, cuja velocidade na outra ponta vinha sendo uma peça-chave para o equilíbrio da Espanha.

Contra Cabo Verde, com Gavi e Ferran Torres pelos lados, a Espanha parecia sem mordida. Mas com a entrada de Álex Baena pela esquerda e Lamine ganhando ritmo no torneio pela direita, ela começou a redescobrir sua organização, velocidade e periculosidade.

Baena foi um problema constante para a Áustria, abrindo o campo e dando à Espanha uma segunda via de ataque, enquanto Lamine repetidamente atraía os defensores para si como um ímã com chuteiras.

A Espanha passou longos períodos tentando isolar Lamine pelas laterais, confiando que ele venceria os duelos individuais. Isso funcionou com frequência suficiente para lhe dar vantagem. No entanto, seus melhores momentos surgiram quando ele se deslocou para o centro, os espaços se estreitaram, e Rodri e Pedri se envolveram mais, permitindo que a Espanha movimentasse a bola com o ritmo familiar de sempre.

Ainda há trabalho a ser feito. A Espanha precisa manter o controle do meio-campo por períodos mais longos e reduzir os espaços entre suas linhas. Mas essa foi uma atuação que sugeriu que as engrenagens estão começando a se encaixar.

Marc Cucurella e Pedro Porro foram excelentes nas laterais, Rodri cresceu de forma impressionante após o intervalo e Mikel Oyarzabal foi decisivo mais uma vez. Talvez o detalhe mais encorajador para a Espanha tenha sido o fato de Lamine ter sido eleito o melhor jogador da partida, apesar de não ter marcado nenhum gol nem dado nenhuma assistência.

Isso é importante. Enquanto os candidatos ao título dependem bastante de seus principais atacantes para marcar gols, a Espanha foi capaz de vencer com facilidade com Lamine influenciando a partida de maneiras mais sutis — atraindo a pressão, desestabilizando a organização defensiva da Áustria e criando as condições para que outros jogadores se destacassem.

A autoridade da Espanha não se limitou ao ataque. A equipe não permitiu que a Áustria acertasse um único chute ao gol, a primeira vez que uma seleção conseguiu essa façanha em uma partida de mata-mata da Copa do Mundo desde a Alemanha contra a Argentina na final de 2014.

Além disso, a Espanha não sofre um gol na Copa do Mundo desde a derrota para o Japão em 2022 e está em uma sequência de 34 partidas sem perder.

Após algumas dúvidas iniciais, a Espanha volta a parecer perigosa, com Lamine em forma, destemido e cada vez mais central a tudo o que a equipe faz.

(Reportagem de Fernando Kallas)