Kane no freezer: torcedores argentinos recorrem à superstição antes de jogo contra a Inglaterra

Por Lucila Sigal

BUENOS AIRES, 14 de julho (Reuters) - Os torcedores argentinos não estão deixando nada ao acaso antes da semifinal da Copa do Mundo contra a Inglaterra, colocando o nome do capitão Harry Kane no freezer e repetindo fielmente rituais que acreditam trazer sorte à seleção.

Essas práticas fazem parte da longa tradição argentina das “cabalas” — superstições que os torcedores acreditam que podem influenciar o destino do seu time.

Enquanto a atual campeã Argentina se prepara para enfrentar a Inglaterra por uma vaga na final, os torcedores se apegam às rotinas que, segundo eles, ajudaram a garantir vitórias no passado.

Muitos se recusam a dizer os nomes dos adversários, usam as mesmas camisetas — muitas vezes sem lavar —, sentam-se nos mesmos lugares e comem as mesmas refeições antes de cada partida, convencidos de que mudar qualquer coisa poderia prejudicar as chances da seleção de conquistar mais um troféu.

“Meus amigos e eu temos um ritual”, disse Inês Mutri, de 13 anos. “Escrevemos o nome do principal jogador e do goleiro no mesmo pedaço de papel e colocamos no congelador”, explicou.

“Desta vez, vamos congelar o Kane porque ele é o artilheiro”, acrescentou.

Em um país onde o futebol inspira uma devoção quase religiosa, tais rituais, dizem os torcedores, oferecem uma sensação de controle sobre um resultado que, no fim das contas, permanece fora de sua influência.

A tradição é profundamente enraizada. Carlos Bilardo, o técnico que levou a Argentina ao título da Copa do Mundo de 1986, ficou famoso por superstições elaboradas, como ditar a ordem em que os jogadores entravam em campo, ajudando a consolidar as “cabalas” no folclore do futebol argentino.

Até mesmo o atual técnico, Lionel Scaloni, admitiu que tem seu próprio ritual. “Entro em campo com o pé direito e faço o sinal da cruz”, disse durante o torneio.

Alguns costumes evoluem com o tempo. Durante a Copa do Mundo deste ano, os torcedores compartilharam nas redes sociais imagens geradas por IA mostrando jogadores rivais congelados em blocos de gelo — uma forma simbólica de impedir que eles se movessem, marcassem gols ou fizessem defesas.

A ideia se espalhou para a vida real. O estudante Juan Pablo Calvo, de 18 anos, disse que planeja congelar o nome de Jude Bellingham porque o considera “um jogador incrível”, embora continue confiante na Argentina.

A partida renova uma das rivalidades mais lendárias do futebol internacional, desde o gol da “Mão de Deus” de Diego Maradona em 1986 até uma série de confrontos memoráveis nas fases eliminatórias.

Para a semifinal, Calvo vestirá uma camisa igual à que Maradona usou na Copa do Mundo de 1986, quando a Argentina conquistou o título.

“Embora Messi já tenha conquistado todos os troféus possíveis, esta é uma oportunidade especial porque ele nunca enfrentou a Inglaterra em uma partida como esta, muito menos em uma semifinal”, disse Calvo.

Outros torcedores dizem que a repetição é a “cabala” mais importante. Assim que a Argentina vence, cada detalhe daquele dia deve ser recriado para a próxima partida: as mesmas pessoas, o mesmo lugar, a mesma camisa e, se possível, a mesma refeição.

Mutri está assistindo aos jogos com oito amigos que usam os mesmos bonés e se sentam nos mesmos lugares em cada um deles.

“Sinto que a partida contra a Inglaterra vai ser nervosa, como todas as outras”, disse. “Mas vai ser bom. Vai ser divertido.”

(Reportagem de Lucila Sigal; reportagem adicional de Miguel Lo Bianco)