Corredores ocultos da Copa do Mundo: árbitros acompanham o ritmo e pressão dos jogadores
Enquanto os torcedores se concentram nos jogadores em busca de gols, os árbitros correm com a mesma intensidade, percorrendo normalmente de 12 a 13 quilômetros por partida, segundo a Fifa — uma distância comparável à de muitos jogadores de linha.
Essa realidade transformou a forma como a entidade reguladora do futebol prepara os árbitros para o maior palco do esporte.
“A preparação dos árbitros para a Copa do Mundo de 2026 começou há quase quatro anos”, informou a Fifa à Reuters.
A preparação tem se assemelhado à de atletas de elite. Os árbitros passaram por repetidas avaliações físicas, com o treinamento intensificando-se drasticamente nos seis meses que antecedem o torneio.
O desafio vai muito além da distância. Um árbitro pode passar uma partida lutando contra a umidade em Miami e outra acompanhando o jogo a mais de 2.200 metros acima do nível do mar na Cidade do México, com voos longos, mudanças de fuso horário e temperaturas implacáveis criando exigências que se assemelham a uma prova de resistência.
A Fifa afirmou que as lições aprendidas na Copa do Mundo de Clubes de 2025, nos EUA, se mostraram inestimáveis na preparação dos árbitros para “calor, umidade e também diferentes fusos horários”.
SIMULAÇÕES SEMELHANTES A PARTIDAS
Os árbitros treinam resistência, força, velocidade, agilidade e aceleração, muitas vezes por meio de simulações semelhantes a partidas, enquanto especialistas em desempenho analisam minuciosamente cada sprint, batimento cardíaco e ciclo de recuperação.
O objetivo é simples: chegar a cada momento decisivo antes que a controvérsia aconteça.
Pesquisas relacionaram a fadiga a um posicionamento menos preciso, ângulos de visão mais restritos e reações mais lentas — todos ingredientes para o tipo de erro que pode ficar para sempre na história da Copa do Mundo.
É por isso que a Fifa agora trata os árbitros de maneira muito semelhante aos jogadores.
A equipe de arbitragem da Copa do Mundo é composta por 52 árbitros, 88 árbitros assistentes e 30 árbitros de vídeo, provenientes de 50 federações membros.
Com sede em Miami, eles vivem em um ambiente voltado para treinamento, nutrição, recuperação e preparação técnica, com 12 especialistas médicos e 10 fisioterapeutas, além de um chef treinado em nutrição esportiva.
Dispositivos de GPS monitoram a carga de trabalho, sensores de frequência cardíaca medem o esforço e testes de lactato no sangue ajudam a equipe a determinar como o corpo está se saindo. As cargas de treinamento são então ajustadas com precisão científica.
“Usamos rastreadores de dados no mesmo nível dos jogadores”, afirmou a Fifa.
RECUPERAÇÃO
Os três dias que antecedem as partidas são dedicados a sessões de simulação de jogo, juntamente com exercícios curtos de aceleração explosiva e velocidade.
Depois disso, a recuperação passa a ser o foco principal.
“(Os dois dias após as partidas) são dedicados ao treinamento de recuperação ativa, juntamente com massagens e crioterapia, que ajudam a alcançar uma recuperação mais rápida e eficaz”, afirmou a Fifa.
A entidade também introduziu suplementos de hidratação e reformulou os cronogramas de treinamento para limitar a exposição à luz solar direta.
É fácil não perceber essas exigências, pois os árbitros raramente aparecem nos melhores momentos dos jogos.
No entanto, estudos revelaram que a corrida de alta intensidade pode representar mais de um terço de seus movimentos durante partidas de alto nível, com a frequência cardíaca frequentemente atingindo entre 80% e 100% dos níveis máximos.
Ao mesmo tempo, os árbitros acompanham os movimentos dos jogadores, identificam possíveis faltas, antecipam padrões táticos e buscam o melhor ângulo de visão possível — muitas vezes em plena corrida.
Apesar da preparação, as lesões continuam sendo um risco.
Na vitória dos EUA por 2 x 0 sobre a Austrália na fase de grupos, o árbitro alemão Felix Zwayer desabou com cãibras nos acréscimos, exigindo que jogadores de ambas as equipes, além de um árbitro assistente, o ajudassem a alongar a perna para que pudesse terminar a partida.
À medida que as quartas de final do torneio se aproximam, os holofotes continuam voltados para os jogadores — mas por trás de cada momento decisivo há um árbitro correndo para acompanhar o ritmo, sabendo que o soar de um apito pode mudar tudo.
(Reportagem de Lori Ewing; Reportagem adicional de Ally J. Levine e Simon Scarr)